Bom, essa é daquelas histórias que eu me divertiria em contar sem precisar fazer nenhuma análise mais profunda, apenas relatando exatamente o que aconteceu, os personagens envolvidos e o desfecho inusitado. No entanto, a diversão acabou sendo olhar um pouco mais fundo e entender os vieses, atalhos mentais (heurísticas), gatilhos de influência e outras limitações cognitivas (como nossa memória falha) que se tornaram os grandes protagonistas da história.
Vamos a ela.
Recentemente, dois rapazes tocaram o interfone do meu prédio, se apresentaram como policiais federais e disseram ao porteiro que precisavam olhar a garagem porque estavam investigando um caso de pedofilia. O porteiro, sem hesitar — motivado por um dos principais gatilhos de influência e persuasão: o da autoridade — abriu a porta do prédio e, além de acompanhar a visita dos “policiais federais” à garagem, ainda permitiu que eles tivessem acesso a um caderninho com nome, apartamento e celular de todos os moradores. Depois de devidamente fotografarem tudo, simplesmente foram embora, sem levar um centavo.
Lá pelas tantas, o porteiro começou a achar que a situação havia sido estranha (afinal, uma investigação de pedofilia na garagem talvez não fizesse muito sentido, certo?) e resolveu mandar um zap para o zelador. O zelador concordou com a estranheza dos fatos e encaminhou a mesma mensagem para a síndica, que, por sua vez, surtou e tomou a seguinte decisão: ligar para todos os moradores e agendar uma assembleia extraordinária para aquela noite.
Como esperado — já que somos seres essencialmente movidos por uma enorme aversão à perda (pesquisas indicam que a dor de perder algo é 2,5 vezes mais intensa que o prazer de ganhar o mesmo algo) —, a assembleia reuniu praticamente todos os condôminos do prédio.
Sob a perspectiva das ciências comportamentais (e refletindo após algum tempo do ocorrido), é interessante perceber como a assembleia foi dominada pelo viés da confirmação:
Viés da confirmação: distorção da realidade que fazemos quando buscamos apenas fatos que comprovem nossa visão sobre determinado acontecimento e recusamos outros que questionem sua veracidade.
A síndica, por exemplo, abriu a discussão dizendo:
“Bandidos disfarçados de policiais federais entraram no nosso prédio hoje à tarde após uma falha gravíssima de segurança do nosso porteiro.”
Dali em diante, o assalto iminente passou a ser uma verdade. A assembleia virou uma grande tentativa de reunir evidências que suportassem essa narrativa:
- “Eles vieram apenas conhecer o terreno para poder planejar de fato o assalto. Eles vão voltar em breve.”
- “Com certeza. Até por isso tiraram fotos de alguns carros na garagem.” (o que gerou um caos ainda maior para descobrir quais haviam sido os carros fotografados).
- “Eu soube que também fotografaram o caderninho com os nomes e telefones da portaria. Querem estudar melhor cada um dos condôminos e definir os alvos certos.”
- “Estou tentando me recordar de crianças brincando na garagem (já que o porteiro disse que era um caso de pedofilia), mas não consigo me lembrar.”
- “Como eles mostraram os rostos para as câmeras, devemos assumir que vão mandar outras pessoas. São muito bem organizados: existem os que planejam e os que executam. Nunca são os mesmos.”
- “Se fossem policiais federais de verdade, teriam apresentado identificação.”
Algumas semanas se passaram e nada aconteceu (fora o investimento financeiro e de tempo). A vida quase voltava ao normal… até que os mesmos “policiais federais” apareceram novamente no prédio, dessa vez acompanhados por muitos outros. Tocaram o interfone e anunciaram ao porteiro:
“Aqui é a Polícia Federal. Precisamos entrar para executar um mandado de busca e apreensão por estelionato.”
(Pasmem: por uma clara limitação de memória, “estelionato” tinha virado “pedofilia”).
O porteiro, incrédulo com o que estava acontecendo, reagiu gritando:
“Seus bandidos, vagabundos, vou chamar a polícia! Aqui ninguém entra!”
Caos geral. Os policiais federais (que desta vez eram realmente verdadeiros) começaram a pular os portões do prédio, para desespero de todos que passavam pela rua. A cena levou à chegada da Polícia Militar em questão de minutos, apenas para confirmar a veracidade dos fatos. Pois é: a ação de busca e apreensão aconteceu, e os policiais federais foram embora levando várias caixas e documentos de um condômino investigado.
Moral da história: muito cuidado com o viés da confirmação durante uma tomada de decisão. Questione mais os fatos. Faça sempre o papel de advogado do diabo (ou contrate alguém que o faça). Pense em hipóteses contrárias à sua. Divida com outras pessoas. Entenda se realmente sua perspectiva é válida ou se você está agindo apenas como marionete dos seus vieses e emoções.
E, para finalizar este artigo, a perspectiva do zelador sobre toda a confusão:
“Todos pensando que o bandido estava lá fora, mas, na realidade, ele estava aqui dentro.”